ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988
Veja: versão francesa, da tradução abaixo
O desenvolvimento e a integração da doutrina de fana' no quadro de uma teosofia sistemática parece bem pertencer, na medida de nossos conhecimentos, a al-Junaid de Bagdá (morto em 298/910). Esse discípulo de al-Muhasibi, chamado na sequência "o xeique da Ordem", é de longe o espírito mais original e mais penetrante do sufismo contemporâneo. Outros antes dele ou ao seu redor puderam, em uma brilhante intuição, descobrir tal ou qual cimeira; ele domina e abarca do alto de seu pensamento analítico toda a paisagem da especulação mística e levanta um plano homogêneo e inteligível. Em uma série de cartas e opúsculos descobertos desde pouco, esboça, em uma língua sutil e profundamente estudada, um sistema coerente da teosofia islâmica que não será melhorado na sequência e formará o núcleo de toda a especulação ulterior.
Segundo a definição clássica de al-Junaid, citada por numerosos escritores posteriores, o "tawhid consiste na separação do Eterno daquilo que teve origem no tempo". Tomando apoio na aliança pré-eterna concluída pelo homem com Deus e, segundo os Sufis, consignada no Alcorão (C. 7.166-167), al-Junaid mostra no curso inteiro da história um esforço do homem para honrar esse pacto e voltar ao "estado no qual estava antes de ser". Comenta assim a entrevista memorável entre Deus e o homem, nessa longínqua ocasião: "Nesse versículo Deus vos diz que falou em um tempo onde eles (os descendentes de Adão) não existiam, senão n'Ele. Essa existência não é do tipo habitualmente atribuído às criaturas de Deus; é um tipo de existência que Deus só conhece e de que só tem consciência. Deus conhece sua existência; ao abraçá-los, vê-os no princípio onde eram não existentes e inconscientes de sua futura existência neste mundo. Sua existência é intemporal". Alhures observa: "Nesse versículo Deus afirmou que lhes falou quando não tinham existência formal. Isso é possível porque Deus os apreende em sua existência espiritual. Essa existência espiritual implica que conhecem Deus espiritualmente sem de modo algum postular que sejam conscientes de sua própria individualidade".
A existência individual separada do homem no universo é, segundo al-Junaid, o fruto e a consequência de um ato deliberado da Vontade divina, que ao mesmo tempo deseja "vencer" a existência do homem pela efusão de seu próprio Ser. Comentando o hadith bem conhecido: "Quando Eu o amo, sou a audição pela qual ele ouve..." observa: "É portanto Deus que o fortifica, que o torna capaz de realizar isso, que o guia e lhe dá a visão daquilo que deseja, da maneira que deseja de sorte que realize a retidão e esteja de acordo com a Verdade. É portanto o Ato de Deus nele, o Dom de Deus a ele, e somente a ele. Não se deve atribuí-lo positivamente ao adorador pois não toma sua origem nele."
O sufismo (tasawwuf) consiste, segundo a definição de al-Junaid, "em que 'Deus faz morrer (o homem) a seu eu para viver n'Ele'". Essa morte-a-seu-eu recebe o nome de fana' (o termo recorda a sentença corânica: "Toda coisa é perecível — fanin — exceto sua Face), a "vida-n'Ele" o de baqa' (continuidade). Ao morrer para o si o místico não cessa de existir, no sentido verdadeiro da palavra existência, enquanto indivíduo; ao contrário, sua individualidade, que é um dom inalienável de Deus, é aperfeiçoada, transmutada e eternizada por Deus e em Deus. Ao mesmo tempo, o retorno à existência contínua é uma fonte de provações (bala') e de aflição, pois o homem está ainda separado de Deus por um véu, e al-Junaid recorre à imagem do amante que languisce por sua amada enquanto sorve uma alegria intensa no sofrimento causado por essa separação. Voltadas à vida material após a experiência mística de sua vida em Deus, "as almas daqueles que conheceram Deus pedem às campinas verdejantes, às belas perspectivas, à frescura dos jardins verdes", a todas as belezas da Natureza, em suma, às Obras admiráveis de Deus, uma consolação quando seu Autor se escondeu." Após sua união a Ele, Ele os separa d'Ele (Ele lhes restitui sua individualidade), pois Ele os torna ausentes (deste mundo) quando estão unidos a Ele e Ele os torna presentes (a este mundo) quando os separou d'Ele". Essa oscilação da união à separação reencontra-se neste curto poema de al-Junaid:
Sei agora, Senhor
O que se passa em meu coração;
Em segredo, longe do mundo
Minha língua se entreteve com meu Adorado.
Assim, de uma maneira,
Estamos unidos e Um,
E de outra, a separação
É eternamente nosso estado.
A meu profundo olhar
Um vertiginoso pavor esconde tua Face,
Mas, na Graça maravilhosa do Êxtase,
Sinto teu contacto no fundo de meu coração.